André Marcel
Eu cruzei o fogo e voltei para contar
Eu já fui DJ de festas rave.
Durante anos, eu comandava a pista. Milhares de pessoas dançando no ritmo que eu escolhia... e eu, por dentro, sem saber para onde estava indo.
A música era alta o bastante para eu não ouvir a mim mesmo. Quando ela parava, vinha o vazio. Usei drogas tentando calar um barulho que nenhuma substância calava. Quanto mais alto eu subia, mais fundo era a queda.
Veio o diagnóstico: transtorno bipolar.
E eu recusei. Recusei o diagnóstico, recusei ajuda, recusei tratamento. Os altos me levavam ao céu, as quedas me jogavam no chão, e eu seguia acreditando que dava conta sozinho.
Não dava.
Foram diversas internações em clínicas psiquiátricas.
Conheci o som de uma porta que só abre pelo lado de fora. Os corredores, os horários marcados, os dias que pareciam todos iguais.
Eu entrava, saía... e voltava. Cada alta parecia um recomeço. Cada recaída, uma prova de que talvez não existisse saída para mim.
Por fora, eu era o paciente. Por dentro, eu era um homem que ainda não tinha coragem de olhar para si mesmo.
Durante uma crise, provoquei um acidente de trânsito. Eu fui o culpado. E paguei por isso: fiquei preso por cinco meses.
Cinco meses. Cento e cinquenta dias, contados um a um.
Quem comandava a pista agora vivia numa cela. Sem música. Sem palco. Sem fuga. Sem ter para onde correr de mim mesmo.
Ali não existia festa, não existia substância, não existia aplauso. Existia só eu, o silêncio e tudo aquilo que passei a vida inteira tentando não ouvir.
A depressão chegou pesada e apagou cada luz que ainda restava. E, no ponto mais escuro da minha vida, eu tentei tirar a minha própria vida.
Eu sobrevivi.
E hoje escrevo estas palavras como um sobrevivente. Não para causar pena, mas porque sei que alguém que está lendo isso pode estar exatamente onde eu estive.
"A minha história não foi um erro. Foi a minha preparação."
Foi no silêncio que eu tanto evitava que, pela primeira vez, comecei a me ouvir.
E ali eu entendi algo que mudou tudo: eu não era o meu diagnóstico. Não era as minhas internações. Não era a minha pena. Não era os meus erros.
Foi só depois de despertar que eu fiz o que antes recusava: aceitei o tratamento, com acompanhamento especializado. E sigo em tratamento até hoje.
A consciência, o autoconhecimento e a espiritualidade não substituíram esse cuidado. Eles me deram a coragem de aceitá-lo.
"Despertar não foi fugir do tratamento. Foi, finalmente, aceitá-lo."
Mergulhei no autoconhecimento, na espiritualidade e no estudo da mente e da energia. E me tornei terapeuta.
A música, que um dia foi a minha fuga, hoje é o meu instrumento de presença. É por isso que as músicas do Círculo existem.
Hoje acolho, de forma especial, pessoas que enfrentam vícios e depressão. Porque eu cruzei esse fogo. Sei o que é estar do outro lado, sem enxergar saída, e sei que existe vida depois dele.
Quem já viveu atrás de uma porta trancada sabe o valor de uma porta aberta. O Círculo é a porta que eu abro para você.
Se você está passando por um momento difícil, você não precisa atravessá-lo sozinho. O CVV – Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito, 24 horas por dia, pelo telefone 188 ou pelo site cvv.org.br.